“Um amigo meu, nos Estados Unidos, comprou uma casa muito velha, uma casa de mais de cem anos. E ele teve curiosidade de saber como era a cor da casa, a primeira cor da casa, no tempo do seu primeiro morador. Então, começou a tirar as demãos de tinta, pois ela tinha sido pintada com várias demãos de tinta. Ele raspou uma demão de tinta, aparecia outra cor, raspou outra demão de tinta, aparecia outra cor, raspou outras demãos… E foi raspando, raspando, até que, finalmente, ele raspou a última demão de tinta… e teve uma surpresa muito grande, porque o que estava lá no fundo, que ele não podia suspeitar, era que a casa tinha sido construída com pinho-de-riga. O pinho-de-riga é um pinho maravilhoso, cor de marfim, com estrias marrons. São lindos os pinhos de riga. O que aconteceu com o pinho-de-riga? Ele foi sendo sucessivamente pintado e desapareceu, foi esquecido. Foi preciso raspar para que fosse lembrado. Essa é uma metáfora para nós: é isso que acontece com a gente através da vida. A gente nasce pinho-de-riga, criança. Aí os adultos começam a falar e, à medida que vamos falando - e é inevitável que a gente fale - a criança vai sendo pintada com demãos de educação. Fala mãe o que é certo, fala o pai o que é certo, fala o padre o que é certo, fala o pastor o que é certo, fala todo mundo, fala a televisão - e vai pintando, e vai pintando, e vai pintando, até que chega um momento em que a gente não sabe mais quem a gente é.
Vejam então que é necessário que a gente esqueça, que a gente raspe o que aprendeu, é necessário que a gente se esqueça do que aprendeu, para a gente se lembrar de uma coisa que a gente se esqueceu.”
Posted on May 3rd (8:58pm), 1 month ago